Antibiótico no Leite de Descarte

6 agosto 2017

Leite de Descarte – leite coletado de vacas após o parto ou de vacas recém tratadas com antibióticos (durante um período de suspensão, quando o leite pode conter quantidades excessivas de antibióticos) – é comumente utilizado como uma fonte de alimento para bezerras em aleitamento.
Estudos apontam (USDA NAHMS Dairy 2014) que mais da metade de todas as operações leiteiras e quase 70% (Figura 1) de todas as bezerras são alimentadas com leite integral (leite integral ou leite de descarte), até o desaleitamento ou pelo menos em uma parte do período de aleitamento. O estudo realizado pelo USDA não faz separação entre leite vendável ou leite não vendável, mas podemos assumir que a maioria do leite
provavelmente é o leite não vendável (leite de descarte).

Em razão do leite de descarte ainda conter alguma quantidade de antibiótico, é comum o questionamento a respeito da resistência aos antibióticos. Isto é, se alimentarmos as bezerras com leite de descarte, o qual contenha uma variável (e em geral baixa) concentração de antibióticos, esta prática aumenta chance do desenvolvimento de bactérias resistentes à antibióticos nas bezerras?

Normalmente assumimos que uma certa quantidade de antibióticos é necessária para se induzir a resistência à antibióticos em animais. Se a concentração de um determinado antibiótico em uma amostra de leite é muito baixa, as bactérias no leite não serão afetadas e também não desenvolverão resistência ao antibiótico. Porém, se a concentração de antibióticos estiver acima da concentração inibitória mínima (MIC), o
crescimento será prejudicado e as bactérias (assumindo a luz intestinal) podem desenvolver resistência.

Grafico Leite Descarte

Em contrapartida, Gullberg et al. (2011) relataram que concentrações de medicamentos até centenas de vezes abaixo do MIC podem aumentar a resistência bacteriana, sempre que presente em concentrações muito baixas. Portanto, é possível que concentrações de antibióticos como as concentrações encontradas no leite de descarte poderiam influenciar na resistência de bactérias a assim na saúde das bezerras.

Por fim, tem sido mostrado que genes resistentes a antibióticos podem ser transferidos por bactérias em partes do corpo além do intestino. Isto pode ter uma grande importância se a resistência encontrada nos pulmões, são um grande risco de infecção, principalmente quando não há ventilação adequada.

Pesquisa

Pesquisadores da Universidade de Barcelona (Maynou et al., 2017) utilizaram bezerros de oitos fazendas produtoras de leite, para o estudo. Bezerros de quatro fazendas foram alimentados com leite de descarte (LD) e os bezerros das outras quatro fazendas foram alimentados com Sucedâneo (S). A quantidade total de LD ou S variou de acordo com o manejo nas fazendas, a pesar da maioria ter sido alimentada com 2L de dieta líquida em duas refeições diárias. O alojamento também variou de acordo com a propriedade, embora a maioria dos bezerros tenha sido alojada individualmente até o
desaleitamento. Os antibióticos tipicamente utilizados (os quais foram testados separados deste estudo) incluíram amoxilina, ceftiofur, enrofloxacina, eritromicina, colistina, doxicilcina, florfenicol, imipenem e estreptomicina.

Foram coletados esfregaços, fecal e nasal de cerca de 20 bezerros em cada fazenda. Os bezerros tinham em média 42 dias de idade no período de amostragem. Todo bezerro que foi tratado antes dos 42 dias de idade com antibiótico, por diarreia ou infecção respiratória, foi excluído do estudo para eliminar o risco de confundir o trabalho. Os esfregaços foram analisados para a presença de bactérias resistentes aos antibióticos.

Resultados

Os tipos e concentrações de antibióticos no LD utilizado em cada propriedade não foi monitorado durante o estudo, por isto, não foi possível determinar exatamente as concentrações diretas necessárias para cada antibiótico no LD. 

Os antibióticos utilizados pelas propriedades para tratar ou prevenir foi fator bloqueador no modelo estatístico. No entanto, este fator não teve nenhum efeito na proporção da resistência E. coli por bezerro.

O aleitamento com LD aumentou a proporção de isolados resistentes a enrofloxacina, florfenicol e streptomicina (Tabela1). Além disto, o aleitamento com LD aumentou a percentagem de isolados fecais de E. coli que foram resistentes a multi-medicamentos. A maioria das fazendas estudadas utilizaram enrofloxacin para tratar bezerros com diarreia e doenças respiratórias e estreptomicina para tratar vacas com mastite. Por outro lado, apenas uma fazenda utilizou florfenicol e aumento no isolados resistentes não foi esperado.

Tabela Leite Descarte

Os autores hipotetizaram que “o uso de antimicrobiano em particular poderia selecionar resistência para outro antimicrobiano em uma população bacteriana”. A transmissão de genes de resistência de uma espécie bacteriana para outra tem sido
documentada.

A maioria das propriedades utilizam um tipo de antibiótico Beta-lactam, incluindo amoxilina e ceftiofur no tratamento de mastite em vacas e tratamento de pneumonia e diarreia em bezerros. Assim, os autores esperaram altos níveis de resistência nas amostras fecais coletadas. Toda via, não houve níveis elevados de resistência para E. coli fecal e nenhum efeito do aleitamento com LD. Por fim, para esta classe de antibióticos, outros efeitos e resistência parecem ser mais importantes.

Por outro lado, resistência a doxiciclina e eritromicina foi igual nos isolados de E. coli fecais sempre, a pesar da doxiciclina não ser usada em algumas fazendas e a eritromicina ter sido utilizada em apenas uma fazenda. Outra vez, os autores hipotetizaram que a transmissão de genes de resistência bactéria-a-bactéria pode ter ocorrido pelo contato animal-a-animal ou pela ingestão de alimento ou água contaminados. Animais de outras fazendas ou alimentos contendo bactérias resistentes podem teoricamente contribuir para o aumento da resistência no estudo.

Sendo assim, para a avaliação da prevalência de bactérias resistentes a antibióticos no intestino, os autores coletaram amostras do trato respiratório e avaliaram a prevalência de Pasteurella multocida em ambos os grupos. No entanto, somente cerca de 36,5% das amostras nasais coletadas continham P. multocida. Portanto, a estimativa da resistência antimicrobiana foi mais difícil de ser determinada. Geralmente, a contribuição da alimentação com LD para a resistência a antibióticos da P. multocida foi mínima. Apenas resistência a colistina foi aumentada na P. multocida de secreções nasais quando o LD foi fornecido. Curiosamente, a colistina foi utilizada em apenas uma fazenda para tratar bezerros doentes (problemas respiratórios e digestivos). Diferentes tipos de mutações bacterianas e transmissão horizontal (bactéria-a-bactéria) de genes de resistência tem sido relatada na literatura e foram hipotetizadas como uma razão do grau de resistência na P. multocida neste estudo.

Resumo

O aleitamento com LD, uma prática comum na indústria leiteira, parece aumentar a resistência a antibióticos em bactérias fecais de bezerros (medidos pela E. coli neste estudo), em menor grau, bactérias respiratórias (medidos pela P. multocida). Além disso, o alto grau de resistência de ambas as bactérias para antibióticos que foram raramente utilizados ou nunca utilizados nas propriedades leiteiras neste estudo sugere que a transmissão horizontal de resistência genética de outras bactérias no ambiente ou outros animais podem contribuir para a resistência em bezerros na faze de aleitamento.

Referências

Gullberg, E., S. Cao, O. G. Berg, C. Ilbäck, L. Sandegren, D. Hughes, and D. I.
Andersson. 2011. Selection of resistant bacteria at very low antibiotic concentrations.
PLoS Pathog. 7:e1002158.