Tendências Globais e Sinais Regionais Moldando o Gerenciamento de Riscos de Micotoxinas – Q1 2026

Dr. Daniel Miranda – Gerente Técnico Global de Micotoxinas, Trouw Nutrition

O risco de micotoxinas em 2026 não é uma questão de se haverá contaminação, mas de onde ela se concentra e quão severa será. Os dados de monitoramento global do primeiro trimestre confirmam que fumonisinas, deoxinivalenol e zearalenona continuam dominando o cenário de risco em diferentes regiões e ingredientes – com os subprodutos do milho emergindo como amplificadores críticos. O gerenciamento eficaz este ano dependerá da consciência regional, da precisão em nível de ingrediente e de decisões de mitigação mais rápidas.

O cenário das micotoxinas está em constante mudança, tornando o monitoramento oportuno uma parte essencial de programas eficazes de segurança e qualidade de rações. Em 2025, a Trouw Nutrition consolidou mais de 124.000 análises de micotoxinas em 47 países, e esse processo de monitoramento continua em 2026. Os primeiros meses de 2026 revelam um desafio global em evolução: análises de amostras do primeiro trimestre confirmam a persistência do risco de múltiplas micotoxinas, com padrões claros por região e por ingrediente. Zearalenona (ZEN) e deoxinivalenol (DON) continuam sendo as micotoxinas mais prevalentes, enquanto as fumonisinas (FUM) permanecem como o principal fator de intensidade da contaminação.

1. Por que os dados do Q1 2026 já importam para as decisões de 2026

O programa global de monitoramento de 2025 demonstrou que o risco de micotoxinas é estrutural e não episódico, impulsionado por interações entre clima, origem da matéria-prima, processamento e condições de armazenamento. Os dados iniciais de 2026 reforçam essa conclusão e acrescentam uma nuance operacional: o gerenciamento eficaz depende menos da frequência da contaminação e mais da intensidade e da co-contaminação. À medida que as estratégias de formulação se adaptam rapidamente à volatilidade do mercado, os dados do início do ano já fornecem sinais acionáveis para definir prioridades de mitigação ao longo de 2026.

2. VISÃO GLOBAL:
Q1 2026 EM PERSPECTIVA COM 2025

Globalmente, a prevalência observada das “Big 6” micotoxinas no Q1 de 2026 foi a seguinte: ZEN 50%, DON 44%, FUM 30%, AFLA 28%, T-2 23% e OTA 10%. Os dados anuais de 2025 mostraram maior prevalência para essas mesmas micotoxinas, refletindo efeitos sazonais no início do ano. Ainda assim, a hierarquia relativa de risco permanece inalterada.

Em termos de intensidade de contaminação, o padrão é consistente:

·         FUM continua sendo a micotoxina mais significativa (média de 766 ppb, com valores extremos superiores a 24.000 ppb)

·         DON aparece em seguida (média de 436 ppb)

·         ZEN mantém relevância constante (média de 54 ppb)

Os resultados do Q1 de 2026 confirmam uma mensagem-chave identificada em 2025: “FUM impulsiona desafios de alta intensidade em escala industrial, enquanto DON e ZEN sustentam o risco de exposição crônica.”

3. PONTOS CRÍTICOS NO NÍVEL DOS INGREDIENTES: ONDE O RISCO SE INTENSIFICA

Milho e coprodutos de milho

No Q1 de 2026, as análises globais de milho mostraram DON em 40%, FUM em 32% e ZEN em 35% das amostras, com os níveis de fumonisinas determinando a intensidade geral da contaminação. O desafio aumenta significativamente quando coprodutos de milho são incluídos:

  • DDGS de milho: DON detectado em 83% das amostras (média de ~2.000 ppb) e ZEN em 85%
  • Farelo de glúten de milho: FUM em 100%, DON em 96% e ZEN em 97% das amostras

Esses resultados reforçam uma tendência consistente destacada em 2025: os coprodutos da moagem e da produção de etanol são fortes amplificadores do risco de micotoxinas e exigem estratégias dedicadas de monitoramento e mitigação.

Farelo de soja

Mesmo ingredientes tradicionalmente considerados de menor risco requerem atenção. No Q1 de 2026, a ZEN foi detectada em 64% das amostras globais de farelo de soja, demonstrando que a pressão por micotoxinas se tornou um desafio transversal nas formulações, não limitado apenas às fontes energéticas.

4. Além das micotoxinas “clássicas”

Painéis analíticos expandidos baseados em LC-MS/MS continuam revelando alta ocorrência de micotoxinas emergentes, como eniatinas, beauvericina e alternariol, especialmente em amostras provenientes da União Europeia. No conjunto de dados apresentado, as eniatinas foram detectadas em 100% das amostras analisadas, reforçando sua ampla presença em condições comerciais. Esses achados confirmam que focar apenas em micotoxinas regulamentadas pode subestimar a real exposição biológica, especialmente quando perdas de desempenho permanecem sem explicação, apesar de níveis analíticos aparentemente aceitáveis.

África e Oriente Médio (Q1 2026)

A região apresenta um perfil de alta pressão de micotoxinas em milho e rações compostas, combinando forte risco de Aspergillus (AFLA) com ampla contaminação por Fusarium (DON, ZEN e FUM). A co-contaminação é frequente, indicando que sistemas de aves e suínos frequentemente operam sob um desafio significativo de múltiplas toxinas.

Destaques

  • Milho: AFLA 78%, DON 81%, ZEN 73%
  • Ração para frangos de corte: FUM 100% e ZEN 100%
  • Ração para leitões: AFLA 100% e FUM 100%

Ásia-Pacífico (Q1 2026)

O perfil regional é claramente dominado por ZEN, com presença relevante de AFLA e FUM e um forte sinal de risco em milho. Esse padrão sugere que existe exposição crônica em cadeias produtivas dependentes de milho, reforçando a necessidade de estratégias contínuas de mitigação focadas nos ingredientes.

Destaques

  • Região (geral): ZEN 79%, AFLA 42%, FUM, FUM 40%
  • Milho: FUM 85%, ZEN 82%, AFLA 53%
  • Ração para aves: ZEN detectado em 100% das amostras

Américas (Q1 2026)

As Américas apresentam um dos cenários de micotoxinas mais intensos do trimestre, com alta prevalência de DON, FUM e ZEN, fortemente amplificada por coprodutos de grãos, especialmente DDGS. Do ponto de vista prático, a gestão de risco deve ser orientada pelos ingredientes, com regras claras de escalonamento.

Destaques

  • Região (geral): DON 85%, FUM 83%, ZEN 83%
  • Milho: FUM 94%, DON 82%
  • DDGS: DON 100% e FUM 100% (média aproximada de 1.900 ppb)

Europa (Q1 2026)

Apesar de apresentar menor prevalência geral de micotoxinas, a Europa mostra um risco crônico e frequentemente subestimado em sistemas específicos, particularmente silagens, dietas totais misturadas (TMR) e coprodutos de milho. Esse padrão destaca a importância de ampliar o monitoramento além dos grãos e considerar a exposição total da dieta.

Destaques

  • Região (geral): DON 27%, FUM 16%, ZEN 35%
  • Silagens: ZEN 75%, FUM 52%
  • TMR: ZEN 90%, DON 70%

 

Mensagem final

O primeiro trimestre de 2026 confirma o que as análises de 2025 já indicavam: as micotoxinas representam um risco global, mas o controle eficaz deve ser regional e específico por ingrediente. A vantagem competitiva em 2026 não virá de realizar mais testes, mas de testar de forma mais inteligente, reagir mais rapidamente e mitigar de maneira direcionada, especialmente onde prevalência e intensidade de contaminação convergem.

Transformando dados de micotoxinas em soluções de valor para a suinocultura

O monitoramento global de micotoxinas continua revelando que a alta prevalência de micotoxinas de Fusarium e a frequente co-contaminação das dietas comerciais representam um desafio persistente para a produção de suínos. Mesmo quando as concentrações analíticas são consideradas manejáveis, o impacto biológico cumulativo continua sendo uma importante fonte de perdas ocultas, especialmente em plantéis reprodutivos.

Nas operações com matrizes, a pressão por micotoxinas gera consequências que vão além da eficiência alimentar. A exposição crônica a FUM, DON e ZEN compromete diretamente sistemas metabólicos e reprodutivos que, no fim, determinam a rentabilidade da granja.

À medida que os sistemas produtivos se tornam cada vez mais orientados por dados e sensíveis às margens, o mercado está migrando de abordagens centradas apenas na toxina para estratégias de mitigação orientadas a valor. O foco já não se limita à capacidade de adsorção, mas sim à proteção de funções biológicas essenciais sob condições reais de exposição múltipla a micotoxinas.

Nesse contexto, as tecnologias de mitigação de micotoxinas de última geração, incluindo inovações que devem chegar ao mercado em breve, posicionam-se não como soluções genéricas, mas como ferramentas projetadas para proteger a estabilidade metabólica e o desempenho reprodutivo. Essa mudança reflete uma evolução mais ampla na suinocultura: a transição do gerenciamento de toxinas para a proteção da lucratividade ao nível do plantel.